sexta-feira, 18 de junho de 2010

O fado da vida

Ariadne, sempre desejou dar vida a um ser semelhante, vê-lo crescer, educá-lo para prosperar e vingar. No dia em que recebeu a notícia de que iria conceber um menino, o seu coração disparou, uma quantidade avassaladora de emoções assolou-lhe o coração…é indescritível a sensação, a alegria gerar uma parte de si, a que irá atribuir um amor incondicional. Mas, esta alegria, transcendente a toda a realidade, é acompanhada por um medo constante de falhar, de vacilar…a extrema responsabilidade de oferecer ao mundo uma dádiva de imensurável magnificência e, ao mesmo tempo, de libertá-la para que também ela se transforme num ser capaz de deixar a sua marca, é arrebatadora.
Ariadne guiou Teseu para que ele fosse o pioneiro na história familiar a frequentar um curso superior. Ela idealizava um médico, dando primazia à neurocirurgia. Tudo fez para que a formação do seu filho fosse na área da medicina: durante a infância e a adolescência, os brinquedos, os livros, eram todos relacionados com essa área. Mas, Teseu tinha outro sonho: ser artista…um pintor surrealista….a sensação que o pincel lhe proporcionava era de elevação a um mundo transcendente, onde atingia uma felicidade e realização inacessíveis no mundo físico real.
O dia 08 de Julho de 2006 foi um dia marcante na vida de Teseu e de sua mãe, pois era o dia da inscrição para o concurso ao ensino superior. No dia anterior, Ariadne decidiu encarar o que ignorou até à data: a vontade do filho, no que diz respeito à sua carreira profissional. Ela sabia que havia chegado o momento de cortar o cordão umbilical mental inquebrável, que a ligava a seu filho, apesar de não saber se iria, algum dia, ser capaz de o concretizar. Teseu comunica-lhe que o seu destino é a escola de artes, em Londres e mostra-se irredutível quanto à sua decisão, já há muito planeada. É inimaginável a dor de sua mãe, ao aperceber-se que não iria mais guiar o seu rebento no labirinto vivencial. Teseu estava consciente de que teria de lutar contra os “Minotauros” do mundo das artes, mas o feito de poder exercer o que realmente o apaixonava era superior a todos os obstáculos possíveis e imagináveis….no seu pensamento, a sua força de vontade era invencível.
Uma simples mensagem é aqui proferida - a todos os Teseus: deixem-se guiar, mas não tenham medo de enfrentar os monstros no grande labirinto que é o mundo real; a todas as Ariadnes- ajudem a elucidar na mente dos Teseus o fio condutor da vida, mas não deixem as vossas expectativas causar qualquer tipo de sofrimento e sentimento de perda….encarem a vida tal como ela é e mentalizem-se que a parte de nós com que presenteamos o mundo, deixa de nos pertencer no momento exacto da concretização da oferenda.

Verónica Sousa
(Psicologia)

1 comentário:

Anónimo disse...

Texto belíssimo, de uma simplicidade tocante, que atinge ao mesmo tempo profundidade. Um excelente exemplo de reescrita mitológica, de alto nível. Venham mais reescritas assim, até dá gosto.